Política Blog do Valdomiro

OPINIÃO | Quando os acordos pesam mais que a lógica administrativa

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A política vive de acordos — e disso ninguém deveria se espantar. Para se eleger, para governar, para compor mesas diretoras ou blocos de votação, os pactos são o combustível silencioso do jogo institucional. Muitos cidadãos torcem o nariz para essas articulações, mas, gostemos ou não, elas são perfeitamente legais e fazem parte do tabuleiro. O problema começa quando a costura política se confunde com a criação de estruturas que pouco dialogam com a real necessidade administrativa.

É exatamente esse cenário que volta a se desenhar na Câmara Municipal de Brusque. O Legislativo colocou em marcha a criação de mais um cargo comissionado: o de assessor da Mesa Diretora, com salário estimado em torno de R$ 7 mil. O requerimento foi lido na sessão desta terça-feira, e o projeto deve ir a votação na próxima semana. Até aí, nada fora do padrão de outras Casas Legislativas. Mas o tema incendiou internamente.

A vereadora Bete Eccel (PT) foi a primeira a levantar a voz. Argumentou que não existe qualquer estudo técnico que justifique a nova função e lembrou que já há diversos cargos plenamente capazes de suprir a demanda da Câmara. Criticou também o aumento de gastos — ainda que a Câmara de Brusque seja, de fato, uma das mais econômicas do estado e tenha folga orçamentária suficiente para absorver esse custo sem sobressaltos.

Na mesma linha, os vereadores do Novo, Felipe Hort e Rick Zanatta, resistem à proposta. E, nesse caso, não há surpresa: seguem exatamente o que o partido prega nacionalmente — menos cargos, menos despesa, menos estrutura estatal. A coerência partidária, pelo menos aqui, se mantém.

Do outro lado do ringue, aparece o vereador Jean Pirola (Progressistas), defendendo que nem todo novo cargo representa desperdício. Para ele, reforçar a estrutura pode ser, sim, uma forma de melhorar o serviço público. O argumento seria razoável… se não houvesse, nos bastidores, a informação de que o Progressistas estaria justamente de olho na indicação do futuro ocupante. Informações que ouvi de fontes internas da própria Câmara reforçam essa leitura.

E aqui vale um ponto importante: Brusque vive um momento curioso. Durante anos, a criação de cargos — especialmente os de assessor parlamentar — foi barrada pelo medo da reação pública. Ou melhor, da reação das entidades organizadas, que sempre se posicionaram com firmeza. O cidadão comum, aquele que vota, paga imposto e deveria se indignar, simplesmente não reage. A Câmara percebeu isso e, quando criou 15 cargos de assessores anos atrás, o “escândalo” durou pouco. Hoje, ninguém mais toca no assunto, e muitos dos que aprovaram o projeto continuam sentados nas mesmas cadeiras.

Ou seja: a impopularidade virou passageira. A acomodação venceu.

Com o cargo atual, a história tende a se repetir. O impacto financeiro é pequeno. A repercussão, igualmente tímida. O debate, previsivelmente restrito a alguns vereadores mais vocalizados — e só.

No fundo, contudo, a discussão não é sobre o tamanho da folha, mas sobre o peso dos acordos. E, ao que tudo indica, o novo cargo integra sim a conta política que viabilizou a eleição do atual presidente do Legislativo, Jean Dalmolin. Nada que surpreenda quem acompanha a política local de perto.

No final das contas, o cidadão seguirá distante, as entidades seguirão gritando sozinhas, e a Câmara continuará testando seus limites. A pergunta que fica é: até quando Brusque vai tratar o interesse coletivo como nota de rodapé em acordos que acontecem sempre na penumbra — mas que pesam no bolso e na gestão de toda a cidade?

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